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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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PL das milhas: 11 entidades dizem "ameaça existencial" — o motivo tem nome e dívida de R$ 2,5 bi

Onze entidades do turismo e varejo condenaram o PL 3083/2026 em nota conjunta. Li o que elas apontam: a lei proíbe biometria no resgate bem na hora em que abre o mercado secundário pra empresas endividadas como 123Milhas, MaxMilhas e HotMilhas.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Totem de reconhecimento facial biométrico em área de embarque de aeroporto
Totem de reconhecimento facial biométrico em área de embarque de aeroporto

Em 13 de agosto, os grupos de WhatsApp de milhagem comemoraram: “Câmara aprova, agora dá pra vender milha sem medo de bloqueio”. Eu já mostrei aqui, na cobertura de então, que a comemoração era prematura — o texto abre uma porta de saída pros próprios programas, não fecha a regra contra eles. No dia 1º de setembro ficou pior. Onze entidades do turismo e varejo — Abav Nacional, Abear, ABEMF, Abras, Abrasce, Abvtex, Braztoa, CNC, CNT | Sest Senat, ITL, Fohb e IDV — assinaram nota conjunta chamando o mesmo projeto de “ameaça existencial” ao setor de fidelização brasileiro. E o motivo que elas apontam não é ideológico. Tem nome, CNPJ e uma dívida de R$ 2,5 bilhões.

A tese

Minha leitura depois de juntar a nota das entidades com o texto do projeto: o risco real do PL das milhas não é ele proibir bloqueio de conta de quem vende ponto — é ele proibir biometria facial no resgate justamente no momento em que abre o mercado secundário pra empresas que já provaram, com um calote de R$ 2,5 bilhões, que não têm capital pra honrar o que vendem. As duas coisas nos artigos do mesmo projeto não deveriam andar juntas, e ninguém que comemorou o texto em agosto está falando sobre isso.

O que a nota das entidades realmente pede

O pedido de Abav, Abear, Braztoa e as outras oito entidades não é “não regulamentar” — é reler o texto antes de mandar pro plenário do Senado. A nota, publicada em 1º de setembro pelo PanRotas, cita um ecossistema de 330 milhões de contas ativas em programas de fidelidade no Brasil, mais de 15 milhões de passagens resgatadas e 16 milhões de resgates de produto no varejo no ano passado, com 85% dos consumidores brasileiros dizendo preferir esses programas a alternativa sem pontuação. O argumento delas é que o texto aprovado na Câmara trata milha como moeda em vez de benefício promocional — e que essa mudança de natureza jurídica cria reserva de mercado pra operador irregular em vez de proteger quem já compra e vende dentro da regra.

Achei o argumento genérico até ler o detalhe técnico que sustenta ele: o projeto proíbe companhia aérea de exigir biometria facial como condição pra resgatar milha comercializada por terceiro. Parece proteção contra vigilância excessiva. Na prática, tira do programa a única ferramenta que hoje distingue “seu primo resgatando sua milha” de “corretora sem CNPJ regular usando conta roubada”.

A brecha: quem entra no mercado secundário sem provar nada

Aqui está o ponto que a coluna do jornalista Tácio Lorran, na Metrópoles, levanta e que eu acho decisivo: o PL 3083/2026 não exige capital mínimo, liquidez comprovada ou patrimônio de quem opera no mercado secundário de milhas — só impõe essas exigências aos operadores de liquidez oficiais que já têm parceria formal com as companhias aéreas. Uma empresa em recuperação judicial pode continuar vendendo e intermediando milha sem provar que tem dinheiro pra honrar a venda.

Isso não é hipotético. 123Milhas — dona de MaxMilhas e HotMilhas — pediu recuperação judicial em 29 de agosto de 2023, depois de suspender emissão de passagens da linha Promo e propor pagar clientes em voucher com correção de 150% do CDI, segundo o histórico reconstruído pela CNN Brasil. O grupo carrega hoje R$ 2,5 bilhões em dívida, conforme a coluna da Metrópoles. Pelo texto que está no Senado, esse tipo de empresa — endividada, em recuperação, sem obrigação de comprovar liquidez — segue livre pra vender milha no mercado secundário, e a companhia aérea perde o direito de pedir biometria pra confirmar que quem está resgatando é quem diz ser.

Junte as duas coisas: menos exigência de capital pra quem intermedia, menos verificação de identidade pra quem resgata. Não é a leitura que nenhuma das duas fontes fez sozinha — é o que sobra quando você lê as duas juntas.

O contra-argumento honesto

Onde essa tese pode estar errada: o texto ainda pode mudar. O projeto saiu da Câmara em 13/08 sem debate técnico prévio, segundo a própria cobertura da tramitação, e agora está no Senado — onde eu já mostrei que a definição de “conversão efetiva, contínua e acessível” ainda pode ser apertada, fechando outra brecha do mesmo projeto. Nada impede que a mesma pressão das entidades — ou uma emenda de relator atento à segurança — reintroduza exigência de capital mínimo pra operador de mercado secundário, ou abra exceção de biometria pra empresa em recuperação judicial especificamente. O Senado tem casa cheia pela frente, sem data marcada, e histórico recente mostra que texto de Câmara sai mudado com frequência.

Onde isso te leva

Enquanto o projeto não sai do Senado, seu regulamento atual continua valendo — Smiles, Latam Pass e TudoAzul seguem exigindo o que já exigem hoje pra resgate de milha vendida. Mas se você compra ou vende ponto por corretora, o texto que está tramitando é motivo pra redobrar cautela com quem intermedeia, não pra relaxar: verifique CNPJ, tempo de mercado e se a empresa está listada em alguma recuperação judicial antes de fechar negócio, porque é exatamente esse tipo de operador que o projeto atual deixa entrar sem barreira. Golpe por SMS avisando milha vencendo já mira quem tem cartão premium hoje — um mercado secundário com menos verificação de identidade tende a piorar esse cenário, não melhorar.

E se você já vende milha em volume, a exposição não é só de segurança: passar de certos limiares de compra e venda no mês muda a forma de declarar isso no Imposto de Renda, com ou sem PL sancionado. O sinal pra ficar de olho não é o calendário do Senado — é qualquer notícia de emenda mexendo especificamente nos artigos de biometria e capital mínimo. Até lá, tratar qualquer corretora endividada como risco maior do que o CPM que ela oferece é a única postura que essa fase do projeto sustenta.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.

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