quinta-feira, 11 de junho de 2026
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Inflação de milhas em 2026: por que guardar ponto parado virou prejuízo

As tabelas de resgate subiram de novo em 2026 e o bônus de transferência virou rotina. A conclusão incômoda: acumular ponto sem destino na mira hoje custa caro. Mostro a conta.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Inflação de milhas em 2026: por que guardar ponto parado virou prejuízo
Inflação de milhas em 2026: por que guardar ponto parado virou prejuízo

Tem uma frase que todo influencer de milhas repete há anos como se fosse mandamento: “acumule, acumule, acumule”. Funcionava em 2018. Em 2026, ela está te custando dinheiro — e o pior é que a perda é invisível, porque não sai do seu bolso de uma vez. Sai aos poucos, toda vez que uma tabela de resgate sobe e o seu saldo parado compra menos passagem do que comprava no mês anterior.

Eu venho acompanhando isso desde que comecei a anotar cotações, e 2026 é o ano em que a conta finalmente virou. Não é mais “depreciação lenta de fundo”. É inflação ativa, com aumento de tabela acontecendo no meio do ano e o ponto na sua conta perdendo poder de compra mês a mês.

A tese, em uma frase

Em 2026, o saldo de milhas parado na sua conta é o ativo que mais se desvaloriza na sua carteira — e a estratégia vencedora deixou de ser “juntar” para ser “girar rápido”: acumular só quando há um resgate concreto na mira, com data e CPM calculados antes.

Não é teoria de blog. São três evidências que qualquer um consegue conferir abrindo o simulador do próprio programa.

Evidência 1: a mesma passagem custa mais milhas a cada temporada

Pegue um trecho doméstico de referência. Um GRU–GIG na econômica, fora de pico, custava na faixa de 9 a 10 mil milhas em vários programas há poucos anos. Hoje você abre o mesmo voo e o número que aparece raramente começa com 1 antes do 4. A passagem não ficou melhor. O avião é o mesmo. O que mudou foi a régua.

No internacional, a distorção é maior. Um executiva GRU–Madri que já se resolveu por volta de 120 mil milhas hoje aparece em faixas bem acima disso na maioria das datas — e quando aparece “barato”, é uma exceção de calendário, não a regra. Comparei essa lógica de quantas milhas cada programa cobra por destino em Europa em executiva: qual programa de milhas paga mais, e o padrão é claro: o piso só sobe.

A inflação de tabela não é exclusividade brasileira, mas dói mais aqui. Um levantamento global da consultoria IdeaWorksCompany, citado pela Reuters em reportagem sobre desvalorização de programas de fidelidade, apontou que os principais programas de companhias aéreas seguem ajustando a quantidade de pontos exigida para cima ano após ano, em ritmo que supera com folga a inflação ao consumidor. No Brasil, some a isso a variação do dólar nas taxas e você tem um ativo corroído por dois lados.

Evidência 2: o bônus de transferência virou rotina — e isso muda tudo

Aqui está o ponto que ninguém conecta. Se há quatro ou cinco anos um bônus de 100% de transferência era evento raro que valia madrugar pra pegar, em 2026 ele é praticamente o piso. Tem promoção de transferência bonificada rodando quase toda semana, e os topos de 110%, 120%, às vezes mais, deixaram de ser surpresa.

O que isso significa na prática? Que o ponto comprado fora de promoção, sem bônus, é ponto comprado no preço cheio de um mercado que te oferece desconto o tempo todo. E ponto que você acumulou e deixou parado por meses esperando “a hora certa” é ponto que você poderia ter deixado no banco de origem (Livelo, Esfera, Iupp) e transferido com bônus só quando precisasse — multiplicando o saldo na hora H em vez de vê-lo encolher.

Eu detalhei essa armadilha específica do saldo ocioso em quanto custa deixar pontos parados esperando bônus, e o cálculo é desconfortável: cada mês que o ponto espera, ele perde para a tabela que sobe e desperdiça o bônus que viria se ele tivesse ficado na origem.

Evidência 3: o CPM efetivo só piora quando você acumula sem destino

Faço questão de calcular CPM (custo por milheiro, ou centavos por milha) na frente do leitor, porque é o único número honesto. Vamos a uma conta concreta de quem “guarda pra usar depois”.

Suponha que você comprou ou acumulou 100 mil milhas há oito meses, mirando uma viagem genérica. Naquele momento, essas 100 mil emitiam um trecho internacional que hoje exige 130 mil. Ou seja: para emitir o que você planejava, agora faltam 30 mil milhas, que você vai ter que comprar ou transferir a mais. Some a taxa de emissão em real, que também subiu — comparei os valores cobrados por programa em taxa de emissão de passagem com milhas: tabela comparada — e o seu CPM efetivo, aquele que considera tudo que saiu do bolso dividido pela passagem real, dispara.

Recalculando de forma simplificada: se você travou um custo equivalente a R$ 0,022 por milha na compra e a passagem-alvo encareceu 30% em milhas no intervalo, o seu CPM efetivo sobe para a casa de R$ 0,029 só pela inflação de tabela — antes mesmo de contar a taxa em real. É como deixar dinheiro na poupança enquanto a inflação corre a 15% ao ano: o número na conta nem mexe, mas o poder de compra desaba.

O contra-argumento honesto

Onde a minha tese pode falhar? Em dois casos reais.

O primeiro é o resgate já na mira. Se você sabe exatamente que vai emitir aquela passagem em três meses, acumular agora, com bônus, faz todo sentido — você está travando o custo antes da próxima alta de tabela. A tese não é “nunca acumule”. É “não acumule no escuro”.

O segundo é o status e a qualificação. Quem voa muito e precisa pontuar para manter categoria elite tem um motivo que vai além do CPM da passagem: o benefício de status (bagagem, sala VIP, prioridade) tem valor próprio. Aí a conta muda. Para esse perfil, vale revisar como cada programa qualifica em Smiles, Latam Pass e TudoAzul: qual rende mais pro brasileiro.

Fora desses dois casos, porém, a regra se mantém: ponto parado sem destino é prejuízo programado.

Onde isso te leva

A mudança de mentalidade que eu defendo pra 2026 é simples de enunciar e chata de praticar, porque contraria o hábito: deixe o ponto na origem o máximo possível e só transfira/emita quando o resgate estiver definido, aproveitando o bônus da semana como acelerador final, não como gatilho de compra.

Três movimentos práticos pra fazer ainda este mês:

  1. Audite seu saldo ocioso. Some quantas milhas você tem paradas em programa de companhia (Smiles, Latam Pass, TudoAzul) sem nenhuma passagem na mira. Esse é o seu dinheiro inflacionando.
  2. Migre a lógica pra origem. Concentre acúmulo futuro nos bancos de pontos (Livelo, Esfera) que não pressionam validade curta e que te dão bônus pra transferir só na hora certa.
  3. Defina o destino antes de transferir. Nunca transfira “pra aproveitar o bônus” sem saber pra onde vai aquele ponto. Bônus de 100% sobre milha que você não vai usar tão cedo é desconto num ativo que continua se desvalorizando.

Acumular foi a estratégia certa numa década em que a tabela mal mexia. Essa década acabou. Em 2026, quem ganha é quem trata milha como perecível — usa fresca, não estoca.


Fontes: simuladores oficiais de Smiles, Latam Pass e TudoAzul (cotações consultadas em junho/2026); Reuters, reportagem sobre desvalorização de programas de fidelidade citando dados da IdeaWorksCompany; tabelas de transferência bonificada divulgadas pelos programas bancários (Livelo, Esfera) ao longo de maio e junho de 2026. Cotações e tabelas mudam — confira na data antes de decidir.

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.

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