sábado, 30 de maio de 2026
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GOL entrou em recuperação judicial — o que acontece com as suas milhas Smiles agora?

A GOL pediu Chapter 11 nos EUA em janeiro de 2026. Explico o que muda na prática para quem tem saldo em Smiles, se as milhas somem, e o que fazer antes de decidir qualquer coisa.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Aeronave da GOL Linhas Aéreas estacionada em pátio de aeroporto com céu nublado ao fundo
Aeronave da GOL Linhas Aéreas estacionada em pátio de aeroporto com céu nublado ao fundo

Em 25 de janeiro de 2026, a GOL Linhas Aéreas entrou formalmente com pedido de proteção sob o Chapter 11 da lei americana de falências — o mesmo mecanismo que a Avianca Brasil, a LATAM e a Avianca Colombia já usaram antes dela. No mesmo dia, leitores começaram a me mandar mensagem perguntando uma única coisa: “Meu saldo Smiles some?”

A resposta honesta é: não necessariamente — mas depende de como você age nos próximos meses. E a maioria dos artigos que circularam depois do anúncio ficou entre os dois extremos: “tudo bem, não esquenta” e “corre resgatar tudo agora”. Nenhum dos dois te ajuda a decidir.

O que aconteceu de verdade

A GOL acumulou uma dívida de aproximadamente US$ 6,2 bilhões — o valor aparece nos documentos protocolados no tribunal de falências do Distrito Sul de Nova York e foi amplamente reportado pelo Valor Econômico e pelo The Points Guy. O Chapter 11 não é falência no sentido coloquial: a empresa não fecha, não cancela voos do dia para a noite, não confisca milhas. É uma proteção legal que congela dívidas enquanto a empresa negocia um plano de reestruturação com credores.

Isso importa porque a LATAM fez o mesmo em 2020 e saiu do Chapter 11 em 2022. Os voos continuaram. O LATAM Pass operou durante todo o processo. Resgate ficou limitado em alguns períodos, mas o saldo não sumiu.

A diferença entre a GOL e a LATAM, e o que me preocupa mais aqui: a GOL tem uma dependência operacional maior de slots no Congonhas, a rota mais lucrativa do país, e o plano de reestruturação ainda está sendo negociado enquanto escrevo (maio de 2026). Não há desfecho anunciado — o que significa que o risco ainda é real, mesmo que não seja catastrófico.

O que é o Smiles dentro da estrutura da GOL

Antes de decidir o que fazer com seu saldo, é fundamental entender que a Smiles S.A. é uma empresa separada da GOL Linhas Aéreas S.A. — ela tem CNPJ próprio, capital aberto na B3 (SMLS3) e estrutura financeira independente. A GOL é acionista majoritária, mas a Smiles tem credores próprios, receita própria (venda de milhas a bancos e parceiros) e, em tese, proteção patrimonial separada.

Na prática, isso significa que o Chapter 11 da GOL não arrastou automaticamente a Smiles para o mesmo pedido. As milhas que você tem no seu saldo são um passivo da Smiles, não da GOL — a obrigação de honrar o resgate é da Smiles S.A.

Dito isso, as duas empresas estão intrinsecamente ligadas: a Smiles depende da GOL para ter assentos para resgatar. Se a GOL reduzir malha drasticamente ou encerrar operações (cenário extremo), a Smiles teria dificuldade de honrar resgates em voos GOL e precisaria pivotar completamente para parceiras — o que levaria a custo maior em milhas e menos disponibilidade.

Minha leitura da situação (e onde eu posso errar)

Aqui vai o que penso, com o racional exposto — você decide se concorda.

A tese: o Smiles não some, mas vai piorar antes de melhorar. Tenho três razões para acreditar nisso.

Primeiro, a Smiles precisa de receita para sobreviver — e ela vem principalmente de bancos que compram milhas em atacado para distribuir como bonificação de cartão. Isso não para enquanto o programa existe. Em janeiro de 2026, logo após o pedido de Chapter 11, nenhum dos grandes emissores de cartão anunciou encerramento de parceria com a Smiles. O dinheiro do banco ainda entra.

Segundo, a GOL tem incentivo para manter o Smiles funcionando. O programa de fidelidade é um dos ativos mais valiosos da empresa — foi listado separadamente na B3 justamente para ser monetizado. Desmontar o Smiles durante a recuperação seria destruir valor que os credores precisam para recuperar o que é deles.

Terceiro, o precedente histórico joga a favor da continuidade. LATAM, Avianca Colombia, Norwegian Air — todos passaram por processos similares. Em nenhum deles o programa de milhas foi simplesmente zerado. O que aconteceu foi degradação gradual: piora na tabela de resgate, menos disponibilidade de assentos prêmio, validade encurtada.

Onde eu posso errar: se o plano de reestruturação da GOL não for aprovado pelos credores e a empresa for a uma liquidação (Chapter 7), o cenário muda completamente. Nesse caso, a Smiles teria que encontrar outro operador aéreo ou vender a base de clientes — e o saldo dos acumuladores ficaria em risco real. Estimo esse cenário como menos provável, mas não impossível em 2026.

A conta prática: o que fazer agora

Vou dar um roteiro objetivo, sem “corre resgatar tudo” nem “não esquenta”:

Se você tem menos de 30.000 milhas Smiles: o custo de oportunidade de resgatar “pra não perder” é alto — passagem doméstica com esse saldo sai cara em CPM. Minha escolha seria manter e monitorar os comunicados da GOL a cada 30 dias.

Se você tem entre 30.000 e 100.000 milhas: avalie resgatar algo que você já ia resgatar de qualquer jeito — uma passagem nacional que você precisaria comprar nos próximos 3 meses, por exemplo. Não invente viagem só por medo. Se a emissão faz sentido no seu planejamento, ela faz sentido. Se não faz, não faz.

Se você tem mais de 100.000 milhas Smiles: aqui o risco é relevante o suficiente para agir com mais urgência. A minha leitura é que vale resgatar em rotas que você faria mesmo sem a situação da GOL — preferencialmente em parceiras (Air France, Air Europa, Copa) onde o assento é operado por outra companhia. Isso separa o risco de emissão do risco operacional da GOL.

Outra opção para quem tem saldo grande: parar de acumular ativo no Smiles agora e direcionar pontos de cartão para outros programas. Latam Pass, Livelo ou Esfera oferecem caminhos alternativos — e para entender quando transferir pontos para o Smiles realmente compensa, vale conferir o guia sobre quando transferir pontos vale a pena, onde detalhamos CPM real por programa.

O que monitorar nos próximos meses

A situação tem marcos concretos que você deve acompanhar:

  • Decisão do tribunal sobre o plano de reestruturação: quando sair, vai deixar claro se a GOL opera com malha reduzida ou com força plena.
  • Comunicados da Smiles S.A. na B3: como empresa aberta, a Smiles é obrigada a divulgar fatos relevantes. Vale criar alerta em ri.smiles.com.br.
  • Mudança na tabela de resgate do Smiles: se a tabela subir de forma expressiva (>20% em milhas exigidas por trecho), é sinal de que a Smiles está gerenciando disponibilidade — e o saldo perde valor real antes de qualquer decisão da empresa.
  • Parceria com bancos: se um banco grande (Nubank, Itaú, Bradesco) encerrar parceria com a Smiles, o impacto na receita do programa vai aparecer rápido. Esse seria o sinal mais preocupante.

Para entender melhor como a validade do saldo funciona e quais as regras para não perder milhas em qualquer cenário, recomendo ler sobre validade das milhas Smiles e como estender o prazo.

O que os outros programas oferecem como alternativa

Quem quer diversificar o risco não precisa abandonar completamente o ecossistema GOL — mas precisa entender o que cada alternativa oferece.

ProgramaPontos acumulam via cartão?Resgate em voo GOL?Risco GOL
SmilesSim (transferência)Sim (direto)Alto (dependência total)
Latam PassSim (transferência)NãoNenhum
LiveloSim (acúmulo direto)Parcial (via parceiras)Baixo
EsferaSim (acúmulo direto)Parcial (via parceiras)Baixo

A diversificação mais simples: se você acumula em cartão e ainda escolhe sempre Smiles como destino da transferência, considere dividir. Metade para Smiles quando há bônus expressivo (os bônus de transferência Livelo → Smiles de 80% ainda fazem sentido pontualmente), metade para Latam Pass ou Livelo como “seguro” de saldo.

Essa lógica de diversificação — e quando vale acionar cada programa — é o que o comparativo entre Smiles, Latam Pass e Azul Fidelidade para qualificação de status elite aborda direto ao ponto.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.

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