Flybondi cancelou 79% dos voos em 27 dias — hoje a ANAC decide se corta a rota mais barata pro Cone Sul
ANAC restringiu a venda de passagens da Flybondi após a companhia cancelar 79% dos voos registrados no Brasil. Hoje (3/8) vence o prazo pra rota Rio-Buenos Aires. O que isso ensina sobre caçar tarifa barata sem medir o risco.
Toda comunidade de milhas tem o mesmo dogma: acha o CPM mais baixo, fecha o resgate, comemora a economia. Hoje, 3 de agosto, esse dogma esbarra numa data que a própria ANAC marcou no calendário — o prazo final pra Flybondi provar que parou de cancelar quase 8 em cada 10 voos que vendeu no Brasil. Se a companhia argentina não convencer o regulador até o fim do dia, a venda de passagem pra rota Rio (Galeão)–Buenos Aires trava. E o motivo de eu escrever sobre isso num blog de milhas não é câmbio nem storytelling de aeroporto: é que o mesmo instinto que faz alguém garimpar 20% de bônus de transferência é o que faz gente boa comprar passagem de R$ 370 sem checar se a empresa ainda vai estar voando na data da viagem.
O que aconteceu, com data e número
A decisão saiu em 29 de julho: a ANAC aplicou medida administrativa cautelar contra a FB Líneas Aéreas, a Flybondi, depois de identificar “indícios de deterioração da capacidade operacional da companhia e riscos de prejuízos aos passageiros”, segundo nota da agência reproduzida pela Agência Brasil. O número que sustenta a decisão é seco: entre 1º e 27 de julho, a empresa cancelou 79% dos voos registrados no país — quase quatro em cada cinco decolagens prometidas simplesmente não saíram.
A restrição tem três camadas. Primeiro, a Flybondi não pode mais vender passagem pra destino que ainda não opera de fato — Florianópolis, Maceió e Salvador estavam no papel, mas nunca decolaram, e ficam fora de venda. Segundo, a empresa está proibida de ampliar a malha registrada no Brasil: nada de nova rota, nova frequência ou nova operação enquanto o caso não se resolve. Terceiro — e é a parte que pega o cone sul em cheio — a venda de bilhete pra Rio-Buenos Aires (GIG-BUE) suspende a partir de hoje, 3 de agosto, caso a companhia não comprove até o fim do dia que ajustou a operação o bastante pra garantir regularidade.
Quem já tem bilhete emitido não é afetado por nada disso — a CNN Brasil confirma que a Flybondi segue obrigada a dar assistência, reacomodação gratuita ou reembolso integral em até sete dias em caso de cancelamento do trecho. A ANAC também documentou aumento de reclamação sobre reembolso, remarcação e atendimento — não é só voo cancelado, é gente que reclamou de câmbio de data forçado e SAC que não responde.
Não é a primeira vez que o Brasil vê esse filme
Em 2023, a 123 Milhas suspendeu por meses a emissão de pacotes promocionais depois de vender viagem que a própria caixa da empresa não sustentava — quem tinha bilhete emitido só embarcou porque ANAC e Senacon forçaram a garantia, e quem não tinha ficou esperando reembolso em parcela. Não é o mesmo modelo de negócio da Flybondi (uma é agência, a outra é companhia aérea), mas o padrão de causa é idêntico: promessa de preço abaixo do mercado sustentada por operação que não aguenta o volume vendido. Quando o regulador começa a medir a distância entre o que foi vendido e o que foi voado, alguém vai pagar essa conta — e historicamente, no Brasil, quem paga primeiro é o passageiro que confiou no preço.
O que isso muda pra quem calcula CPM e resgate
Aqui está o ponto que a cobertura geral não fez, porque não pensa como quem caça milha: a mesma semana em que eu escrevi sobre os resgates baratos pro Cone Sul e Lisboa via TudoAzul é a semana em que uma companhia que vendia Rio-Buenos Aires a partir de R$ 370 o trecho, segundo reportagem do Passageiro de Primeira, esbarra numa restrição regulatória. Quem já fez a conta pra emitir a primeira passagem-prêmio pra Buenos Aires sabe que o resgate em LATAM Pass pro mesmo corredor gira na casa de 8 mil milhas o trecho — mais caro em milha, mais barato em risco, porque vem de companhia com histórico de auditoria contínua da ANAC e malha internacional consolidada.
Isso não é dizer que milha protege de atraso ou cancelamento — protege só até certo ponto, e mesmo pagando com pontos você tem exatamente os mesmos direitos de quem pagou em dinheiro, nem um grama a mais. O que muda é a probabilidade de precisar usar esse direito. Comparar CPM sem colocar isso na conta é otimizar a métrica errada: você mede quanto custa a milha, mas esquece de medir quanto custa a chance de a viagem não sair do papel.
Sendo justo com o outro lado: baixo custo internacional não é sinônimo de risco — o modelo já funciona em outros mercados e amplia acesso a rota que, sem ele, custaria o dobro. A própria ANAC frisou que a medida é cautelar, não definitiva, e pode ser revista se a Flybondi provar que resolveu a operação. Cortar toda concorrência de baixo custo no corredor Rio-Buenos Aires seria castigar o passageiro duas vezes: primeiro com o cancelamento, depois com o preço mais alto que sobra sem competição.
Onde isso te leva
Aposto que a Flybondi não vai conseguir reverter a restrição da rota GIG-BUE até o fim do prazo de hoje, por três motivos. Primeiro, 79% de cancelamento em 27 dias corridos não é problema pontual de clima ou greve isolada — é sinal de malha maior do que a frota ou a tripulação disponível aguenta, e isso não se resolve em dias. Segundo, o prazo dado pela ANAC foi curto o bastante pra ser mais aviso do que oportunidade real de correção estrutural. Terceiro, baixo custo internacional que tenta crescer rápido demais na América do Sul tem histórico de não conseguir sustentar a expansão — o próprio mercado já viu formato parecido não vingar antes.
Se você tinha passagem-prêmio ou dinheiro parado pensando em fechar Rio-Buenos Aires nas próximas semanas, a lição prática é simples: antes de bater o martelo na tarifa mais barata, olhe o histórico recente da companhia — reclamação no site da ANAC é público — e prefira pagar com cartão de crédito, não boleto, porque o chargeback é sua segunda linha de defesa se o reembolso atrasar. E se você já emitiu com milhas e a rota travar de vez, vale revisar as regras de cancelamento e reembolso de emissão em milhas antes de aceitar a primeira oferta do SAC — ela raramente é a melhor que existe.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.


