Cartão co-branded de milhas: Latam Pass, Smiles e Azul são armadilha ou oportunidade em 2026?
Cartões com a logo da companhia aérea parecem a escolha óbvia para quem quer milhas. Mas o comparativo de CPM real com cartões multi-programa mostra que a vantagem escondida dos co-branded não está onde você pensa — e o acúmulo do dia a dia quase sempre perde.
Todo mês aparece alguém no meu inbox com alguma variação da mesma dúvida: “Jhonathan, vou pegar o cartão Latam Pass Itaú Black — é o melhor pra acumular, né?” E toda vez a minha resposta começa da mesma forma: depende do que você chama de “melhor”. Porque o cartão com o logotipo da companhia aérea na frente é, paradoxalmente, um dos piores pra acumular milhas no cotidiano — e tem uma única situação em que ele bate qualquer multi-programa no chão. O mercado inteiro erra ao não separar as duas situações.
A tese
Co-branded de companhia aérea (Latam Pass, Smiles, Azul Fidelidade) perde no acúmulo diário para cartões multi-programa (Livelo, Esfera) na maioria dos perfis de gasto brasileiro. A vantagem real do co-branded está na redenção — não na acumulação. Confundir os dois é o erro que faz o leitor pagar anuidade premium pra entregar milha barata.
Evidência 1 — o CPM real na acumulação
Peguei três cartões que o brasileiro mais pesquisa e coloquei lado a lado com base nas tabelas de junho de 2026.
| Cartão | Ponto/R$ (nacional) | Anuidade | Programa |
|---|---|---|---|
| Latam Pass Itaú Black | 2,2 pontos/US$ (≈ 0,65 pt/R$ no câmbio do dia) | R$ 1.188/ano | Latam Pass (direto) |
| Smiles Bradesco Prime | 1,8 pts/R$ (gasolina, supermercado) | R$ 900/ano | Smiles (direto) |
| Itaú Personnalité Visa Infinite | 2,0 pts Itaú/R$ → converte Livelo 1:1 | R$ 1.188/ano (isento acima de R$ 5k/mês) | Livelo (multi) |
| Santander Infinite (Esfera) | 1,5 pts/R$ em todas as categorias | R$ 1.080/ano (isento acima de R$ 5k/mês) | Esfera (multi) |
O Latam Pass Itaú acumula em pontos Latam com base em dólar gasto — o que na prática, com câmbio a R$ 5,40 e a regra de cálculo vigente, chega perto de 0,65 milha Latam por real nas compras nacionais comuns. O Smiles Bradesco acumula 1,8 pontos/R$ em categorias selecionadas — mas queda forte fora delas.
O Personnalité, que é multi-programa, acumula 2,0 pontos Itaú/R$ com conversão 1:1 pra Livelo. Livelo, por sua vez, se transfere pra Smiles com bônus em janelas de promoção — o que faz o CPM efetivo subir. Se você quiser calcular o CPM do seu cartão atual do zero, o método certo está em como calcular CPM de pontos por real no cartão de milhas.
Pra perfil de gasto de R$ 8 mil/mês (R$ 96 mil/ano):
- Latam Pass Itaú Black: ~62.400 milhas Latam/ano, anuidade R$ 1.188 → custo por milha = R$ 0,019
- Smiles Bradesco Prime: ~172.800 pts Smiles/ano (na categoria bonus) → custo por milha = R$ 0,005
- Personnalité Infinite: ~192.000 pts Livelo/ano (isento de anuidade se bater R$ 5k/mês) → custo efetivo quasi zero
O co-branded perde na acumulação. Não por pouco — perde feio em CPM.
Evidência 2 — onde o co-branded vence de verdade
Mas aqui a narrativa vira. O Latam Pass co-branded tem dois benefícios que nenhum multi-programa replica:
Primeiro: acúmulo em voo. Quando você voa Latam com o cartão Latam Pass, acumula milhas de voo E qualificação de status em dobro. Cartão multi-programa não toca nisso — você acumula Livelo no gasto do dia, mas zero em voo.
Segundo: bônus de adesão e promoções exclusivas co-branded. A oferta de 40 mil milhas de bônus na abertura aparece recorrentemente nos co-branded (análise da última campanha do Latam Pass Itaú em maio/2026 no blog). Esses bônus de adesão têm CPM implícito zero — são milhas que chegam sem custo de acumulação. Pra quem pega o cartão, usa o bônus de abertura pra uma emissão, e vai cancelar antes de pagar a segunda anuidade, o co-branded pode ser cirúrgico. Mas exige disciplina.
O Smiles co-branded tem um ponto parecido: acúmulo em voo Gol com multiplicador maior e acesso a tarifas Smiles Flash — resgates que aparecem só pra membros Smiles e somem em horas. Multi-programa não acessa esse inventário.
Evidência 3 — o erro silencioso de perfil
A confusão existe porque o brasileiro pensa o cartão de milhas como “o cartão da companhia que eu voo”. Faz sentido emocionalmente. Não faz sentido matematicamente quando você gasta mais no supermercado, postos e assinaturas do que em passagem aérea.
Na leitura que faço com os números de 2026, o co-branded faz mais sentido pra quem:
- Voa frequentemente na mesma companhia (6+ voos/ano) e quer status mais rápido
- Está em campanha de bônus de adesão com milhas suficientes pra uma emissão específica
- Já tem um multi-programa como cartão principal e usa o co-branded como segundo para maximizar acúmulo em voo
Quem encaixa no perfil inverso — gasto concentrado no varejo, voo esporádico, sem interesse em status — está pagando anuidade de co-branded pra acumular milha com CPM pior. O análogo mais próximo é cashback: às vezes acumular pontos Livelo num multi-programa e resgatar como cashback bate a redenção de passagem de um co-branded. A comparação completa entre os dois caminhos está em cashback vs milhas: qual estratégia faz mais sentido para o seu perfil.
O contra-argumento honesto
Minha tese pode falhar em um cenário específico: quando o co-branded entra numa campanha de transferência bonificada e o banco resolve dobrar os pontos por um período limitado. Isso acontece — o Smiles Bradesco já rodou campanhas de 100% de bônus pra transferência de saldo entre cartões próprios, o que inverte o CPM temporariamente. Se você é do tipo que monitora essas janelas, o co-branded pode surpreender. Mas são janelas de horas, não de dias. Quem não monitora paga mais na média.
A outra exceção é o perfil que negocia a anuidade com o banco todo ano e consegue desconto de 50% ou isenção total. Nesse caso, o custo por milha cai radicalmente — e o co-branded fica competitivo mesmo no acúmulo. Estratégias de negociação de anuidade que funcionam de verdade estão em como negociar anuidade do cartão de milhas e conseguir isenção ou desconto.
Onde isso te leva
A decisão entre co-branded e multi-programa não é guerra de fãs de companhia aérea. É aritmética.
Se você voa Latam ou Gol com frequência e quer status, o co-branded específico dessa companhia tem lógica — como segundo cartão, atrás de um multi-programa que carrega o volume do gasto diário. Se você quer acumular milhas no cartão principal e converter pra voar, a maioria dos multi-programa entrega CPM melhor. Querer os dois benefícios no mesmo cartão, no Brasil de 2026, é pedir demais — o mercado ainda não entregou esse produto.
A escolha certa começa entendendo onde os seus gastos estão e quanto o seu programa principal te dá por real. O resto é consequência. E se você ainda não sabe comparar as taxas de conversão de pontos entre programas, faz sentido checar antes: taxa de conversão de pontos por banco — guia de programas Livelo, Esfera e milhas aéreas.
Fontes
- Tabela de pontuação Latam Pass Itaú — site oficial Latam Pass (junho 2026): latampass.latam.com
- Tabela de pontuação Smiles Bradesco — site oficial Smiles (junho 2026): smiles.com.br/cartao-bradesco
- ABEMF — Anuário do Mercado de Fidelização 2024: abemf.com.br
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.


