Accor Live Limitless (ALL): o programa de hotel que mais aparece no Brasil e que quase ninguém entende direito
O ALL é o programa de fidelidade do grupo Accor — Ibis, Novotel, Mercure, Sofitel, Grand Mercure e mais 40 marcas. Explico como funciona o ponto, quanto ele vale de verdade, e quando faz sentido para o viajante brasileiro.
Semana passada precisei checar um hotel em Porto Alegre pra uma viagem de última hora. Abri três abas: Marriott, Hilton, Booking. Na do Marriott, duas opções. Na do Hilton, zero. Na do Booking, apareceu um Ibis no centro por R$ 189 a noite. Fechei o Booking, abri o app do ALL, e estava lá o mesmo Ibis — com a diária saindo a 2.000 pontos ALL ou R$ 159 cash para membro. Tenho status Silver no ALL de tanto viajar por cidades do interior onde Marriott e Hilton simplesmente não chegam. Esse é o ponto que ninguém fala: o ALL não é o programa mais sofisticado, mas é o mais presente no mapa brasileiro.
A versão de 30 segundos
O ALL (Accor Live Limitless) é o programa de fidelidade do grupo Accor. Você acumula pontos ficando em hotéis das marcas do grupo — Ibis, Novotel, Mercure, Grand Mercure, Sofitel, Pullman, MGallery e mais 40 marcas no mundo. Cada real gasto vira pontos. Pontos se convertem em diárias, experiências ou parceiros. O status sobe de Classic a Silver, Gold, Platinum e Diamond conforme número de noites por ano. Para o brasileiro, o ALL tem três vantagens reais: cobertura no interior do país, presença nas Américas do Sul e Central onde Marriott/Hilton são raros, e parceria de transferência com programas aéreos nacionais. A desvantagem honesta: o valor do ponto em resgate de hotel é mediano — não é o melhor CPM do mercado, mas é consistente.
Conceito 1 — Como funciona o acúmulo de pontos
A taxa base de acúmulo varia por marca e categoria tarifária. Em geral:
- Ibis, Ibis Styles, Ibis Budget: 10 pontos ALL por euro gasto (equivalente a cerca de 1,8 ponto por real, na taxa de câmbio aproximada de maio de 2026)
- Novotel, Mercure, Grand Mercure: 20 pontos ALL por euro gasto
- Sofitel, Pullman, MGallery: 30 pontos ALL por euro gasto
Na prática, o hóspede paga em reais e o sistema converte para euro interno para fins de cálculo. Uma diária de R$ 350 num Novotel (valor típico em capital brasileira) gera aproximadamente 1.120 a 1.260 pontos ALL, dependendo da taxa do dia. Não é espetacular. Para comparar: a mesma diária de R$ 350 num Marriott Courtyard geraria entre 700 e 1.000 pontos Bonvoy, que têm CPM histórico mais alto — mas o Marriott pode não estar disponível na cidade que você precisa.
Um ponto que a maioria ignora: o ALL tem parceria de acúmulo com o programa de companhias aéreas. Na Latam, por exemplo, dá para ganhar milhas Latam Pass em vez de pontos ALL na mesma estadia — basta escolher no app antes do check-in. Para quem foca em milhas aéreas e não em hotéis, essa opção pode render mais.
Conceito 2 — Quanto vale o ponto ALL na prática
Aqui está o cálculo que fiz para três cenários reais de resgate em junho de 2026, usando o simulador do all.accor.com:
| Hotel | Diária cash | Pontos exigidos | CPM (R$/1.000 pts) |
|---|---|---|---|
| Ibis Styles São Paulo Faria Lima | R$ 289 | 4.000 pontos | R$ 72,25 |
| Novotel São Paulo Morumbi | R$ 489 | 8.000 pontos | R$ 61,12 |
| Sofitel São Paulo Ibirapuera | R$ 1.190 | 18.000 pontos | R$ 66,11 |
O CPM fica entre R$ 61 e R$ 73 por mil pontos em resgate direto de diária — um número razoável, comparável ao Marriott Bonvoy em categoria 2-3 e inferior ao Hilton Honors em períodos de promoção. Não é o melhor CPM do mercado, mas também não é mau.
O problema aparece quando você tenta usar pontos em “experiências” (jantares, spa, passeios parceiros): o CPM cai para R$ 15 a R$ 30 por mil pontos, dependendo da experiência. Nunca use pontos ALL para isso se o objetivo é extração de valor.
Conceito 3 — Como o status muda o jogo
O que torna o ALL interessante não são os pontos em si, mas os benefícios de status para quem viaja com frequência por destinos sem Marriott ou Hilton. Os patamares:
- Classic (0 noites): acúmulo base, acesso ao app, preço de membro
- Silver (10 noites/ano): early check-in quando disponível, desconto de 10% em food & beverage
- Gold (30 noites/ano): late check-out garantido até 14h, upgrade para melhor quarto disponível na categoria (não garantido de categoria acima), acesso a Wi-Fi premium
- Platinum (60 noites/ano): check-in prioritário, late check-out até 16h, upgrade preferencial
- Diamond (100 noites/ano): acesso a lounge executivo (onde houver), upgrade de categoria garantido
Para o consultor brasileiro que faz 40-50 noites por ano em viagens de negócio para cidades do interior, o Gold no ALL é alcançável e entrega late check-out garantido — benefício que o Marriott e o Hilton só dão a partir de status equivalente, o que exige gasto concentrado numa rede menor.
A comparação que falta no mercado: para quem divide 50 noites entre capitais (onde todos os programas competem) e interior (onde o Ibis e o Novotel são os únicos jogadores), o ALL Gold entrega mais benefícios práticos do que o Bonvoy Silver, porque o late check-out no Silver Bonvoy não é garantido — é sujeito à disponibilidade.
Onde o ALL falha
Não é tudo positivo. Três limitações reais:
O ponto expira. Pontos ALL expiram em 12 meses sem qualquer atividade na conta — seja uma estadia, uma compra num parceiro, ou uma transferência recebida. É um prazo curto. O Marriott dá 24 meses. Para quem fica longos períodos sem viajar, o risco de zerar o saldo é real. O post sobre como evitar que pontos de hotel expirem detalha estratégias que funcionam para o ALL também.
Transferência para programa aéreo tem taxa ruim. A parceria ALL → Smiles existe, mas a taxa de conversão é de 2.000 pontos ALL para 1.000 milhas Smiles — ou seja, você perde metade. Para quem quer usar pontos de hotel como milhas aéreas, o Marriott Bonvoy transfere 3:1 para a maioria das aéreas (com bônus de 5.000 milhas a cada 60.000 pontos transferidos), e o Hilton Honors converte 10:1 para a maioria dos programas. O ALL não compensa nessa rota.
Ausência de certificado de noite grátis por cartão. O Marriott, o Hilton e o IHG têm cartões co-branded no Brasil (ou em processo de lançamento) que entregam certificados de noite grátis anual. O ALL não tem cartão co-branded local relevante — para o viajante que quer extrair uma noite grátis por ano como benefício de cartão, o comparativo de certificados de noite grátis dos grandes programas mostra que o ALL perde feio nesse critério específico.
Onde o ALL te leva
Se você viaja regularmente para cidades onde Marriott e Hilton não chegam — interior do Brasil, capitais de segundo nível da América do Sul, cidades da África e da Ásia fora dos circuitos turísticos principais —, cadastrar no ALL e concentrar estadias nele para alcançar Silver ou Gold faz sentido real.
Se você viaja quase exclusivamente para capitais com todas as redes presentes, provavelmente o Marriott Bonvoy ou o Hilton Honors entregam CPM e benefícios superiores. O post sobre qual programa de hotel vale mais a pena para o brasileiro faz essa comparação com número, e o ALL fica no meio da tabela — não é campeão, não é perdedor.
A estratégia que faço na prática: mantenho status ativo no ALL com as viagens de negócios para cidades do interior, e reservo Marriott/Hilton para lazer em capitais onde quero extrair o máximo de benefícios de status e de certificados. Dois programas, duas funções. Não precisa escolher só um — desde que você não dilua o gasto a ponto de nunca chegar a status útil em nenhum dos dois.
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Escrito por
Marcos Hayama
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