Apple Pay e Google Pay pontuam milhas? A diferença entre carteira do celular e app de pagamento
O regulamento do cartão diz que "carteira digital" não pontua. Só que a expressão cobre duas coisas bem diferentes: pagar por aproximação com o celular e passar o cartão dentro de um app como PicPay ou RecargaPay. Mostro a conta do que se perde e como checar o seu.
Você abre o regulamento do seu cartão de milhas, chega na lista de transações que não geram pontos e dá de cara com um item curto: “carteira digital”. Aí a dúvida bate. Se você paga o café encostando o iPhone na maquininha, isso é carteira digital? E se recarrega o PicPay com o cartão para pagar um boleto, é a mesma coisa? A resposta é não para as duas perguntas, e confundir os dois casos faz gente boa deixar de usar o celular sem necessidade, ou pior, despejar a fatura inteira num app que não pontua nada.
A tese: o problema nunca foi o celular
Minha leitura é simples. O que os bancos querem barrar é o cartão de crédito virando meio de pagamento de outra coisa: dinheiro que entra num app e sai como Pix, boleto ou transferência. É a “arbitragem de pontos”, em que você paga com o cartão, ganha o ponto e o app faz o resto. Apple Pay e Google Pay são só a mesma compra na loja, com o número do cartão trocado por um token. Para o motor de pontuação, a compra continua sendo uma compra num lojista com um código de categoria (MCC).
Três evidências sustentam isso.
Evidência 1: o Itaú separou os dois casos desde o começo
Quando o Itaú começou a restringir, em novembro de 2020, o recorte foi explícito. Segundo o Tecnoblog, a medida valeria inicialmente para RecargaPay e PicPay, e o banco disse que transações com Apple Pay, Google Pay, PayPal e Samsung Pay, além de carteiras ligadas a sites e aplicativos como o Mercado Pago, ainda iriam pontuar. A justificativa dada pelo banco foi desestimular o uso indevido do cartão.
O detalhe importante: a restrição era para apps que mantêm conta de pagamento e permitem reenviar o dinheiro. Não era para o celular na maquininha.
Evidência 2: o Bradesco teve de esclarecer a mesma confusão
Em 2023, o regulamento do programa de pontos do Bradesco passou a listar transações em carteiras digitais como não elegíveis, e isso gerou pânico. Segundo o MacMagazine, a assessoria do banco explicou que Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay e PayPal continuavam elegíveis e que a exclusão valia para aplicativos que permitem usar o cartão em diversas transações, como PicPay, Mercado Pago, Ame e RecargaPay.
Já o site Cartões de Crédito registrou que o regulamento do Membership Rewards dos cartões American Express do Bradesco traz o item “Carteira Digital” entre as exclusões, sem citar Apple Pay nem Google Pay pelo nome. O próprio autor interpretou que o alvo eram os apps de pagamento. É interpretação, não texto de contrato, e esse é o ponto: a redação é vaga e a prática do banco é que decide.
Evidência 3: a lista de exclusão por MCC já faz o trabalho
Se você leu o texto sobre por que uma compra não pontuou, já sabe que o motor olha o vendedor. Compra no supermercado por aproximação chega com o MCC do supermercado. Recarga de saldo em app chega com o MCC do app, que vira “transferência de valores” ou “carteira”. O que cai fora é o segundo, por causa do vendedor, não por causa do gesto de encostar o celular.
Quanto custa errar: a conta do app
Montei um exemplo para dar escala. Os números são hipotéticos, escolhidos para ficar redondo, e você troca pelos seus.
- Fatura mensal: R$ 3.000.
- Parte que passa por recarga de app de pagamento (boletos, o aluguel do amigo, a conta de luz): R$ 800.
- Multiplicador do cartão: 2 pontos por real.
- Valor atribuído ao milheiro: R$ 25 (hipótese; o seu depende de como você resgata, e o texto sobre CPM e pontos por real mostra como calcular).
Pontos que deixam de existir: 800 x 2 = 1.600 por mês, ou 19.200 por ano. Com o milheiro a R$ 25, são R$ 480 por ano. Parece pouco até você lembrar que o mesmo caminho costuma vir com taxa. O que isso significa na prática está em pagar boleto no cartão: a conta da taxa contra os pontos: você paga para perder ponto.
Do outro lado, os mesmos R$ 800 gastos no varejo, por aproximação no celular, rendem os 1.600 pontos normalmente.
O contra-argumento honesto
Minha tese pode falhar de duas formas.
Primeira: o banco pode mudar de ideia. O fato de Apple Pay e Google Pay estarem liberados em 2020 e 2023, nas declarações que a imprensa registrou, não garante 2026. Banco altera pontuação quando quer, com um mês de aviso. Segunda: “carteira digital” no regulamento do seu emissor pode ser redigida de forma mais ampla, e uma resposta de assessoria de imprensa vale menos do que uma cláusula. Se você depende de uma meta de gasto para ganhar bônus, não aposte a meta na interpretação.
O teste de 10 minutos antes de confiar
Faça isto uma vez por cartão, e anote a data:
- Abra o regulamento do programa de pontos (não o contrato do cartão) e procure “carteira”, “transferência”, “recarga” e “pagamento de contas”.
- Faça uma compra pequena por aproximação no celular e confira na próxima fatura se os pontos entraram. Compra de R$ 20 já serve.
- Se o app de pagamento é indispensável para você, faça uma recarga de valor baixo e cheque se pontuou. Não faça a recarga grande primeiro.
- Registre o resultado e refaça a cada vez que o banco avisar mudança de regulamento.
Onde isso te leva
Use o celular sem medo para compras de loja. Trate qualquer app que guarda saldo como suspeito até o teste provar o contrário, e nunca conte esse gasto na meta de bônus. E se o objetivo é acumular, a maior parte do ganho está no cartão certo para o gasto certo, como mostra o guia de qual cartão de milhas pedir primeiro.
Fontes
- Tecnoblog, Cartões do Itaú não irão mais pontuar no PicPay e RecargaPay. Consultado em 15/10/2026.
- MacMagazine, Cartões Bradesco seguem pontuando em compras com Apple Pay, 10/02/2023. Consultado em 15/10/2026.
- Cartões de Crédito, Cartões Bradesco American Express não irão mais pontuar nas carteiras digitais, atualizado em 08/07/2025. Consultado em 15/10/2026.
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.


